Empreendedorismo

A desunião não é o caminho

29 de março de 2016

Desde que eu cheguei à Nova York tenho participado e me envolvido com pessoas e eventos da comunidade brasileira local, e ouço constantemente esse questionamento: “Porque a comunidade brasileira é tão desunida?” Isso me intrigou há algum tempo e fui atrás das possíveis respostas.

Já se passaram quase 2 anos de muita leitura sobre esse assunto e, durante esse tempo, acabei juntando algumas informações que talvez nos esclareçam alguns pontos.

Um desses livros é o Goodbye, Brazil: Émigrés from the Land of Soccer and Samba, escrito pela antropóloga americana Maxine Margolis o título em português é: Goodbye, Brasil: Emigrantes Brasileiros no Mundo.

O principal ponto que identifiquei no livro foi que os brasileiros não são engajados e comprometidos nas comunidades que aqui existem. De acordo com a antropóloga isso acontece porque a maioria vem aos Estados Unidos já pensando no dia que voltarão para o Brasil, afirmando que os Estados Unidos é lugar para trabalhar. Então por que perder tempo se engajando e se organizando em associações, se na verdade o real objetivo é trabalhar, ganhar dinheiro e voltar?

O PROBLEMA

Constatou-se, ainda, que a maioria dos brasileiros acaba adiando o retorno e permanecendo, em média, 20 anos por aqui, porém esse pensamento de voltar com brevidade, termina sabotando a viajem, pois, essas pessoas não se doam nem aqui nem lá, e acabam vivendo uma meia vida em ambos os países.

Ela explica que os brasileiros são extremamente desorganizados em comparação com os outros grupos, e que essa falta de união com a comunidade não é um problema local, pois, até mesmo no Brasil existem menos associações se comparamos com os USA. Também se notou que os brasileiros trazem os comportamentos e atitudes que estavam acostumados a praticar.

O senso de união e comunidade nos países mais desenvolvidos são fortes e você sente a atmosfera conspirando a favor do conjunto. Por aqui existem desde clubes de leituras a clubes de culinária.

Segundo a escritora, diante dessa falta de engajamento acabamos nos tornando uma comunidade invisível e sem expressão no país, se analisarmos os números podemos concordar com ela, afinal existem atualmente 1,4 (um milhão e quatrocentos mil) brasileiros vivendo nos Estados Unidos e as comunidades são engajadas por uma minoria, ou seja, não existe um órgão ou evento central que conecte esses brasileiros ao redor dos Estados Unidos, principalmente em busca do crescimento do grupo de forma generalizada.

Ela explica que grande parte dos brasileiros, que estão ilegais, se excluem do resto do país, e não se interessam em participar do Senso Americano. Ela conclui que a ignorância da segunda geração também esta incluída nesse contexto (filhos de brasileiros que nasceram nos USA), pois muitos não conhecem o país do qual seus pais vieram.

Segundo o governo brasileiro isso ocorre principalmente por conta da situação ilegal que 730 mil brasileiros se encontram.

 

E QUAL O MOTIVO DE FRACASSO ENTRE OS EMPREENDEDORES?

Há alguns meses atrás fiz algumas entrevistas com brasileiros membros de grupos aqui nos USA, e alguns pontos foram detectados pelos próprios. A maioria das pessoas e empresários locais só interagem com a comunidade quando eles possuem algum interesse em questão, e a maioria das ações são realizadas por um pequeno grupo que acaba sendo vencido por uma maioria inerte.

A língua é uma enorme barreira para comunidade, muitos pequenos e médios empresários não falam inglês e tem muitas dificuldades de expandir seu negocio para além das fronteiras. È como se eles vivessem em um Brasil dentro dos Estados Unidos.

O Departamento de Empreendedorismo e Gestão (DEG) da Universidade Federal Fluminense (UFF) fez uma pesquisa e detectaram que o empresário que vem para os USA passam muitas dificuldades porque estão em um mercado novo e isso os levam a abrirem uma empresa voltada para o mercado brasileiro.

Porém, essa falta de diversificação e dependência acaba trazendo uma grande instabilidade para a empresa. Atualmente isso tem ocorrido com mais frequência, principalmente por conta da crise no Brasil e o dólar sendo cotado a R$ 4,00 (quatro reais). Com isso, muitos brasileiros estão evitando viajar e os que viajam estão segurando os seus gastos, isso tem ocasionado ainda mais problemas no mercado interno, principalmente para aqueles que dependem diretamente do turismo.

POR QUE DEVEMOS INTERAGIR E COLABORAR?

Dessa forma percebo o quanto estamos nos prejudicando com a falta de união, pois, a união fortalece a comunidade e essa rede de ajuda, apoio e contato nos ajuda a crescer e evoluir de forma coletiva.

Afinal a maioria dos brasileiros que chegam aqui sem oportunidades acabam, bem ou mal, sendo acolhidos pela própria comunidade. De acordo com a minha experiência pessoal, acredito que os poucos brasileiros que estão envolvidos e fazem alguns eventos conseguem nos unir e fazem a diferença, o problema é que essas ações são poucas e isoladas.

Se olharmos para Dinamarca e outros países desenvolvidos, podemos perceber como as comunidades são poderosas e atuantes, o que mostra que não é só o governo que tem essa obrigação, ou seja, se nos espelhássemos nesses países vamos perceber o quanto ainda temos que evoluir.

Outro dado coletado confirma que a maioria das empresas brasileiras no exterior emprega brasileiros, o que acaba fortalecendo a colônia e gerando desenvolvimento econômico. Eu concluo que se “ajudarmos” e incentivarmos o empreendedorismo, a educação e outras áreas carentes, principalmente dando apoio ao empresariado local, teremos uma comunidade forte e geradora de empregos.

Assim, podemos compreender que tudo funciona sobre o efeito dominó, ao invés de criticarmos, descriminarmos e rejeitarmos as pessoas menos favorecidas, por que não ajudá-las? Por que não colaborar dando um pouco de si? Acredito que no final todos seremos ajudados.

Um video para nos inspirar..No nosso longo trabalho em equipe.

COMO PODEMOS AJUDAR?

Já que estamos falando em comunidade, por que não nos organizarmos? Então vamos lá, poderíamos incentivar o governo a fornecer espaços ou até mesmo igrejas e empresários para fornecermos cursos, pois, não é criticando seu amigo no facebook que você o estará ajudando, na verdade você estará fomentando raiva e discussões desnecessárias. Minha ideia é: se você tem algum tipo de “sabedoria”, informação ou até mesmo estudou sobre isso toda a sua vida por que não compartilhar?

Se você é vegetariano porque ao invés da criticar você não produz conteúdo sobre o tema?

Se você é professor de português ou sabe bem o idioma, por que não montar um curso gratuito com a ajuda de amigos?

Isso vale para qualquer curso ou área, divulgue informação, faça sua parte! Não devemos nos descriminar, afinal o país é construído por cada um de nós e os resultados negativos são reflexo de uma comunidade desunida e, por não pensarmos no coletivo, sofremos os próprios efeitos das nossas atitudes e ações. Vamos tentar fazer a nossa parte

SE O EGOISTA SOUBESSE O QUANTO É VANTAJOSO AJUDAR, ELE O FARIA SOMENTE POR EGOÍSMO

P.S: Está sendo realizado um conjunto de eventos e cursos para estimular o empreendedorismo fortalecendo a comunidade brasileira nos Estados Unidos, se você tiver interesse sobre o tema é só se cadastrar: www.brazilianbusinessusa.com

Nos vemos lá!!

Fontes: Goodbye, Brazil: Émigrés from the Land of Soccer and Samba, escrito pela antropóloga americana Maxine Margolis.

Maxine começou a estudar os brasileiros que viviam nos EUA em 1989, sendo autora de outros dois livros sobre o tema – Little Brazil: Imigrantes brasileiros em Nova York, de 1994, e An Invisible Minority: Brazilians in New York City (Uma Minoria Invisível: Brasileiros em Nova York, em tradução livre), de 1998.

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2 Comentários

  • Responder Moa Peraccini 5 de abril de 2017 a 18:50

    Excelente matéria!
    Muito útil, principalmente para quem pretende se estabelecer e investir em Nova York!
    E lógico, para quem já está morando lá há algum tempo.
    Grato.

    • Responder Verena Cordeiro 5 de abril de 2017 a 22:38

      Obrigada, Moa!

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