Empreendedorismo

EUA ninguém está 100% LEGAL, nem você!

23 de fevereiro de 2017

Algo me tirou o sono, hoje, dia de 16 de fevereiro de 2017. Estrangeiros que vivem nos Estados Unidos, de diferentes status imigratórios, decidiram fazer protesto contra o governo Trump. Muitos empresários fecharam os seus negócios e funcionários decidiram não ir trabalhar. 

Comecei a pensar em como o sistema mundial é corrompido e aqui, no país do capitalismo, não podia ser diferente. Sempre brinco, dizendo que a diferença do Brasil para os EUA é que o primeiro rouba 9 e faz 1; já o segundo rouba 1 e faz 9.

Tenho recebido muitas mensagens sobre “como abrir um negócio nos EUA” e toda a abrangência que esse tema sugere. E, atualmente, falar de imigração virou quase a mesma coisa que falar sobre comunismo nos tempos da segunda guerra mundial.

Pois vou lhe dizer algumas “verdades”, veladas pelo silêncio do “sonho americano”. Sim, existem milhares de burocracias para imigrar e ter uma empresa aqui. São tantas que, mesmo após abrir uma, eu não me recordo, nem mesmo, do contrato social.

Mas saiba que a grande maioria dessas regras não é cumprida por 80% dos empresários e imigrantes locais. Ainda mais em se tratando de leis, certificados, autorizações, licenças, falar bem o idioma, autorização para trabalhar e uma série de outras coisas que se encaixam bem nos livros do Sebrae. 

Porém, a realidade do empreendedor imigrante é outra: a maioria começa a empreender por uma necessidade de pagar as contas, pelo instinto de sobrevivência, pela opressão, por não ter autorização para trabalhar na sua área de atuação, e também pelo medo de voltar para o país de origem com um sentimento de fracasso. 

Endereço comercial? Equipamentos adequados? Carro plotado? Oh, meu caro! Esse luxo fica para empresários consolidados, com alguns anos de estrada. 

Para o empreendedor imigrante que não foi abençoado com uma herança ou com um prêmio da loteria, isso literalmente é um sonho distante. Uma grande parte começa na informalidade, na sala de casa, em reuniões ainda secretas, com cortinas e portas fechadas, sem divulgação em inglês, vendendo para sua comunidade ou nas escolas e igrejas. São ambientes quase secretos, dignos dos tempos da ditadura; quem precisa de ajuda, ao menos para desabafar, encontra respaldo entre “os seus”, muitas vezes em grupos do Facebook

Essa situação de empreender em casa é levada até ao extremo limite, com muita pressão da família, que sempre cobra mudanças, melhorias, ou a “autopressão” causada pelo sonho de um dia retornar ao seu país de origem, com o mínimo de dignidade para viver a tão esperada vida tranquila.

A pequena minoria que chega às capas de revistas, às vezes, “esquece-se” de dizer que o imigrante sofre uma discriminação tão velada que nem ele mesmo sabe identificá-la. 

Outro dia, estive em um órgão oficial brasileiro, para pedir apoio para um projeto em prol da “comunidade empreendedora” e sabe o que eu escutei??? “Verena, você deveria pedir ajuda aos órgãos americanos . O Brasil não tem como ajudar. E outra coisa: brasileiro não gosta nem de ir à biblioteca ler e informar-se, quanto mais buscar informações por parte dos órgãos reguladores…” 

E eu, que imaginava conseguir um grande apoio e sair de lá com uma linda foto digna de postar no meu Instagram! 

Pois é, na verdade, fui embora muito triste, pensando nos muitos empresários que eu encontrei na semana anterior. Eles tinham esperanças de encontrar, nos eventos que o BBU- Brazilian Business USA, uma oportunidade de inclusão e aceitação. 

O que o atendente desse órgão precisaria entender é que, para algumas pessoas, até entrar na biblioteca pode ser uma tarefa bem difícil, muitas vezes, pelos medos que são desenvolvidos pelo sentimento de exclusão. Medo dos livros, da língua à qual nunca tiveram acesso… fora a baixa autoestima de quem que veio do terceiro mundo, da maior colônia de exploração de toda a América Latina.

E para você que acha que estamos falando de pessoas sem instrução ou, até mesmo, dos personagens da novela América, não se engane!! A imigração atual não corresponde mais àquela imagem de um passado distante, quando muitos vinham trazidos por coiotes, que os atravessavam pelo México. 

Quase todos vêm com visto; são turistas e estudantes, em sua maioria, pertencentes a famílias abastadas, porém, não conseguem manter um padrão  “novaiorquino” por muito tempo e acabam buscando um trabalho como forma de se sustentar na cidade. 

Alguns poucos têm um sentimento de “marginalidade”, por estarem em situação irregular, com o visto vencido ou por terem entrado pela fronteira. Outros são excluídos até por aqueles que já galgaram um lugar ao sol, sendo, por vezes, discriminados pela própria comunidade. 

E boa parte daqueles que tiveram um pouco mais de oportunidade, acabou se distraindo, admirando a  “concrete jungle (lembrei-me, agora, da múscia do Jay-Z, Empire State of Mindpor um longo período, mas o tempo passou… e eles perderam o foco! Acabaram no subemprego, sem muitas perspectivas de sair dessa situação. 

“Mas, Verena, eu larguei uma vida boa, tenho tudo no Brasil, e blá, blá, blá…” Infelizmente, você terá que aceitar que entrou para esse time, afinal, existem milhares de pessoas na mesma situação.

O julgamento, as críticas e a falta de apoio fazem parte do dia a dia. O discurso dos conterrâneos da própria “comunidade”, que subiram para o segundo nível, é o mesmo que as classes abastadas usam no Brasil, para marginalizar a população que recebe ajuda de programas sociais, como o bolsa-família. 

Esta semana, tenho carregado a tristeza da empatia… a empatia de ter me encontrado com diversos sonhadores em cafeterias, praças e em conversas on-line. A empatia de perceber que muitos desses que erraram, querem somente uma chance de recomeçar, de fazer o certo. Eles não estão aqui para fazer fortunas nem para ostentar uma vida de luxo em terras distantes. Alguns fugiram; fugiram de um país em frangalhos, sem esperanças nem oportunidades. 

Aí, eu escuto: “Mas você não está no seu país”; e eu pergunto: “Quem criou as fronteiras?” Todas elas, independentemente do país, vieram de derramamento de sangue e muito sofrimento.  Afinal, quem realmente pertence a este país?  Como muitos dizem por aqui, quem teria algum direito de se chamar “Americano” eram os índios que viviam nos EUA antes da colonização.

Segundo o Wikipedia, durante a “Guerra indígena”, os colonos mataram 90% dos aborígenes daqui. Existiam 25 milhões de índios antes do genocídio, e sobraram somente 2 milhões, após todo aquele massacre. Foi o maior registrado na história da humanidade.

Então, não importa como e quando você veio parar neste país; se você é ou não empreendedor, nunca deixará de ser um imigrante.

E a minha mensagem para aqueles que querem empreender fora da sua pátria é “VÁ!!!” Estude e planeje-se minimamente, para não se frustrar; não acredite em fórmulas mágicas, em capas de revistas, em guias para o sucesso, em regulamentações, em pessoas que falam e contam a versão que lhes convém. 

Organize-se e venha por um tempo, o suficiente para conhecer as verdades veladas por aqueles que se omitem de contar a realidade para um mundo que só sabe julgar.

Mas esses que julgam não têm empatia, solidariedade e amor ao próximo. Os que são perfeitos, que atirem a primeira pedra. Aliás, em tempos de redes sociais, não precisamos de pedras.

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1 Comentário

  • Responder Andrea 12 de fevereiro de 2019 a 18:06

    sem palavras 😶 que texto tão transparente, bem redigido e honesto! Muito obrigada, pois o pior preconceito é sempre silencioso, mata de dentro p fora a começar pelos sonhos!

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