Empreendedorismo

Hiperatividade: a doença que aprisiona e paralisa seus projetos.

25 de setembro de 2017

São 23h35 e, como em milhares de outras noites, eu estou aqui escrevendo. A minha cabeça não para de trabalhar e saiba que isto não é bonito e, muito menos, algo de que me orgulho. Tenho transtorno de hiperatividade com déficit de atenção, mas conviver com isto pode ser uma das realidades mais torturantes para um ser humano.

Desde de criança, eu nunca me senti igual aos outros; sabia que havia algo “estranho” com a minha falta de concentração. Não me adaptava em nenhuma escola e detestava a ideia de estar lá. Era mesmo terrível imaginar-me naquele ambiente tão cruel, desigual e injusto. Sim, muito injusto, pois pessoas com habilidades diferentes são colocadas no mesmo tonel, impondo-se a elas, um sistema de ensino altamente ultrapassado.

Minha infância foi um pouco mais complicada, já que meu pai não entendia isso e não identificava minhas habilidades. Numa realidade em que tirar 10 em todas as matérias era regra, eu não me encaixava e os problemas começaram a surgir. Após essa fase, eu fui diagnosticada com TDAH.

A doença chamada de “Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade” (TDAH) ficou famosa no Brasil há alguns anos e todas as famílias com filhos saudáveis passaram a procurar um médico, achando que era um tipo de epidemia. Mas, na minha época, não era popular e, para falar a verdade, minha mãe nem sabia o que isso significava.

Só quando consegui meu primeiro emprego é que comecei a estudar os meus problemas e descobri que não tinham nada haver com a definição populista que se instaurou na sua fase áurea. Insônia, pensamento acelerado, angústia, ansiedade excessiva, irritabilidade, distração, impulsividade e o esquecimento atormentavam-me de forma extrema, paralisando meus negócios e projetos.

Cansei de pedir ao meu pai para me buscar em algum lugar, por eu ter perdido a chave do carro,  dinheiro e coisas que até Deus duvida. Houve um momento bem crítico: fui ao shopping com minha irmã e deixei quase mil reais cair da minha bolsa, sem ao menos perceber o que estava ocorrendo… as cédulas se espalharam pelo chão e ela foi catando. Só depois de algum tempo, contou-me o que tinha acontecido.

Em outras épocas, eu voltaria para casa, ficaria me lamentando por mais um desastre e jamais pensaria em procurar ajuda. Porém, na  mesma segunda-feira, eu marquei diversos médicos e iniciei meu “tratamento”. Fui de ressonância cerebral a exames cardíacos e, após longos meses, foi detectada com um alto grau de TDAH.

A primeira médica entupiu-me com o famoso remédio ritalina. Ele me deixava teoricamente ótima, tranquila, focada, e DROGADA. Exatamente isto que você leu: a ritalina me trouxe uma arritmia sufocante, e lá estava eu em busca de mais um médico, atrás da possível cura.

Em seguida, acabei encontrando um profissional que realmente me ajudou. Ele simplesmente ordenou que eu jogasse minhas caixas tarja preta no lixo e começasse a aplicar novas regras no meu dia a dia: comer menos açúcar, praticar exercícios físicos à noite, entre outras. Para completar, comecei a fazer terapia, e foi isto que me ajudou a melhorar mais efetivamente.

Em uma das sessões, a terapeuta me disse: “Verena por que você não tenta escrever?” E eu lhe devolvi: “Como assim?” Ela explicou: “Em vez de passar noites em claro, compre cadernos e escreva tudo o que está na sua mente. Isto pode lhe ajudar a eliminar ideias e pensamentos, se você os transferir para o papel.”

No dia seguinte, fui à papelaria comprar papeis, canetas e cadernos. E foi assim que eu comecei a escrever. Depois de um tempo, surgiu este blog. De maneira alguma vou contar uma história de superação, pois ela não ocorreu… eu simplesmente aprendi a conviver com o problema e extrair o melhor de toda esta situação.

Acabei concluindo que temos que saber aproveitar o lado bom até dos nossos defeitos. Nenhum de nós é perfeito e, às vezes, buscar a correção é um grande erro. Fomos criados para ser assim como somos e o que devemos fazer é encontrar lugares, países, pessoas que se identifiquem com o nosso jeito e façam-nos sentir à vontade, com respeito à individualidade.

Sempre existem aqueles que estão dispostos a nos aceitar e transformar nossas deficiências, falhas em algo produtivo. O mais lento pode cuidar do administrativo, das consultorias; o desinibido, das apresentações; os hiperativos, da “comissão de frente”; o medroso e precavido, do dinheiro; etc. Assim, acabamos transformando defeitos e sentimentos em coisas boas, servindo à sociedade com mais propósito.

Os grandes artistas e pensadores eram pessoas com algum tipo de problema na infância e conseguiram utilizar esses pontos “fracos” para produzir e mudar o mundo.

Eu não sei qual é o seu problema, mas encontre uma forma de usá-lo para transformar a sua vida, o seu bairro, a sua comunidade, em um mundo melhor, no qual os nossos defeitos sejam qualidades. Assim, transformaremos positivamente o nosso entorno, encontrando uma posição para cada indivíduo de forma rica, compreensiva e gratificante.

Espero ter ajudado de alguma maneira. Boa semana!

Relacionados a este post

Nenhum comentário

Escreve uma resposta

Receba nossas atualizações

e inspire-se com dicas sobre independência financeira